Atuais leituras

sábado, 13 de março de 2010

Metafísica (conto)

Entrou.


Viram-no, com os olhares oblíquos de sempre, fingindo falarem sobre ninharias. Pelo que pôde perceber, através dos rostos ainda escarninhos, haviam sido surpreendidos naquele ato dogmático de expelir obviedades sobre os seres.

Certamente, ele era também um alvo, vacilante e acovardado.

Abriu o folheto. Será o homem digno de Deus? Insosso, tentando em vão a ironia, um sim aqui, ali um talvez, um sorriso aborrecido.

Mesmo durante a celebração havia o cálculo. Era como uma náusea, um estigma particular. A música assomava pelos alto-falantes durante a ontologia acanalhada. Olhou em volta, as reações de cada qual à experiência. Notou que à distância ainda não se furtavam ao curso daqueles raciocínios, inseguros quando encarados de modo incidental, engolindo em seco os risinhos, a contragosto.

Dia desses iam ver só uma coisa, ah, se iam.

O celebrante finalizou a série de gritos com um dó-de-peito incomum, indecente. Aí, outros sons se fizeram ouvir, madeira levemente chocada contra joelhos e cotovelos, salto alto e suaves arrastões, o rebanho abrindo caminho rumo ao mundo das aparências.

Eram apenas comentários. Tudo ocorre da maneira mais natural, casual, todos sabem o que dizer, o que fazer, como portar-se, vestir-se, etc. Jamais se omite a verdade, quanto mais a verdade absoluta – são estes os desígnios.

“Não são todas as pessoas que trabalham como nós, com total desinteresse...”

“Agimos em benefício somente do universal, apesar do particular.”

Risos.

“Não é possível esse pessoal de fora querer se meter no serviço da gente, assim, sem mais nem menos!...”

Dia desses iam ver só, ah, se iam.

Cruzando o salão, a garota das sobrancelhas se aproximou.

Nenhum comentário:

Postar um comentário