Atuais leituras

terça-feira, 9 de março de 2010

Pequena Resenha Crítica - Vacas no Céu do Interior

Não era para eu ler esse livro, eu não estava nem aqui, não estava previsto, fora de contexto, aliás, a bem da verdade, esse livro me assustou quando as “Vacas (Poemas!) Do Interior” caíram em minhas mãos de sentidor de uma urbe desvairada S/A, aliás, a bem da verdade, falando sério, VACAS NO CÉU DO INTERIOR (Editora Scortecci, SP) nem era para ter sido escrito. Será o impossível? Como é que pode?

Escrito? Pode ser. Vamos por parte, por pactos, por sentições. Disse. Isso. Que loucura gente-humana. Poemas nada em linhas retas, poemas como as bandeiras de VOLPI, soltos amiúde, dando o que pensar, captar, sentir, ralar no tácito. Perigas ler. Havemos de senti-los... Tudo tem a forma de poesia pura.


Nunca gostei de poetas que escrevem em linhas nada lineares, mas quando li a poesia exuberante de Ari Marinho Bueno capitulei, claro. Arquibaldo Luiz de Oliveira Filho, bacharel em Letras que orelhou o livro, termina a apresentação do autor altamente criativo dizendo que não há impunidade na poesia, nem para o poeta, nem para o leitor. Senti firmeza. É por aí...


Fui abduzido. “Na roça minha mãe enxugava o suor/Do rosto com as palmas das mãos/Diz que era pra não criar calos/A pele sempre fina e macia/Mas era pra não machucar os filhos(...)” – in pg 13, Vívidas.


Os poemas em linhas retas avacalham a estética gráfica e, feito twitter-poeminhos (poemaços) encurtam pavios nada lineares.

 

I
POVO em as ruas é coisa que não passa: leva
BEM PRA LONGE O FIO-DA-MEADA

(pg 19, sem título, fragmento)


Escutem (leiam) esse achado-pérola rara:


NA
VOCÊ
A HOMEM


O MULHER
NO
MIM

 
ATÉ
QUE
ENFIM


NÓS
QUATRO
A SÓS


 
.....................................................................................Lindo! – Bravo!


(! penso eu lendo as Vacas no Céu do Interior:)


Poemas, eu vos leio-vejo. “Respeitas o rude do Concreto?” (pg 23, Catequese do Alegre Plagiador)


Os poemas de Ari Marinho Bueno ins-piram, cobram, desfocam, alardeiam, sugerem, cutucam, instigam, bagunçam o coreto e dizem os veios do poetaço que os enredou, ele mesmo. Irônicos, tristes, alegres, rudes-bonitos, salpicantes (sangue, suor e lágrimas...)


Saquem esse: “O poeta não quer mais saber o porquê/O estupefato que não se afeiçoa/Que não se preza a razão/De um qualquer avanço cataclísmico;/Tsunamis, tornados, manadas de búfalos, enchentes, vá lá, estouro de balões em festa de aniversário”


Fui pego pela palavra, quero dizer, pego pela poesia?


OU, o haiquase:


boi no pasto
estou contigo
e não abro


Ari Marinho Bueno dá de comer ao poema (citando Murilo Mendes), dá a sua ração de amor, horror, dor, estertor – olhares significativos para poemas cascalhados da vida/morte/sobrevivência (inclusive no sensível dele, ave césio).


Ari com Vacas clareia a poesia. Sorte nossa. E por agora chega. Vão à cata do livro com labiriscas pungentes. Ainda estou abalando com a maravilhante poética dele.

 
-0-
Silas Correa Leite
E-mail: poesilas@terra.com.br




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