Atuais leituras

domingo, 7 de março de 2010

Profundo (conto)

Tendo perdido o pai repentinamente aos sete anos, Rubens acostumou-se depressa à morte. Criou até um provérbio: a cada morto, melhor a vida.


Porém, como todos sabem, o tempo é implacável. Uma semana após completar anos, forçosamente presenciava outro enterro.

Desta vez o órfão passava dos quarenta e seu pai, desenganado há tempos, agonizara lentamente em direção ao fim.

Os tios vieram para o velório e não conheciam a cidade como deviam, insistindo para que Rubens os acompanhasse. O fato de não visitá-los há mais de dez anos foi determinante. Agora, entre duas dúzias de pessoas praticamente desconhecidas, lamentava o desaparecimento do homem.

Lamentava?

Enquanto baixavam o morto à sepultura, Rubens bocejou com serenidade, embora fosse uma alma drástica. Ninguém notou, é certo, ou ele quis que não notassem.

As lágrimas do filho único rolavam volumosas. Aquele homem feito, em meio aos amigos e parentes tímidos, fixava o caixão com fervor quase místico.

Pesaroso, o tio abraçou a mulher, que se mostrava pouco à vontade.

Terminada a cerimônia, as pessoas evacuando sua tristeza entre os túmulos e lápides, Rubens desejou cantarolar um bocadinho. Os tios queriam levá-lo consigo para casa, ver como cresceram as primas, “são só cento e vinte quilômetros, faz dez anos que você não visita a gente...”

Mas, sem falar ou ouvir coisa alguma, nosso herói encarou o sol.

Nenhum comentário:

Postar um comentário