Atuais leituras

segunda-feira, 29 de março de 2010

São Paulo, Outono de 2010

Aqui vai um texto sobre o dilema de escrever, sim ou não à escritura, sim ou não ao estilo.

Adorno, se não me engano, de certa feita sentenciou que, após Auschwitz, não fazia mais sentido escrever poemas, o Holocausto como um raspar de cabelos da infância da Humanidade. O grande homem da Escola de Frankfurt acreditava que não havia sujeito na História escrita ou por escrever.

Na superestrutura do mundo mecanicista-capitalista, não é à toa que o marxismo dispõe ao lúmpen-proletariado uma condição de nível terciário, sistematizando o pensamento burguês como uma «doutrina da história » de culto à personalidade.

Intertextualidades à parte, escrever é realmente um ato solitário/solidário, mesmo que seja sobre vossa aldeia, mesmo que seja sobre todos os desatinos dos homens, o destino das coisas factuais. A crítica, se algum misericordioso habilitar-se, será a antítese que enviará o leitor, ora desprovido de orientação, ao limiar da catarse que muito já confundiu os caminhos da literatura, e que diz que os autores – ao menos os grandes, são seres a meio caminho entre a loucura e a santidade, semi-deuses a flanar sobre este limbo em que nos arrastamos.

Embora este desvelar diacrônico da máquina-do-mundo, (onde o ser-autor se reconhece como tal dando aí, talvez, curso ao binômio: vontade-representação), o que faz um autor em geral, de maneira particular mais intensa quanto maior for este autor, é tornar inteligível (?), verossimilhante, essa interpretação do universo, dos fatos.

Tudo isso mais ou menos calcado (ou vilipendiado) pelo estilo, pelo o que os franceses chamam de ècriture: signos, sinais, significados, significantes.

Queremos dizer com isso que há uma dialogia entre essa verossimilhança e a carga, se assim podemos nos referir, de signos e significantes a serem utilizados na obra em aberto.

É como gritar sozinho num deserto, com a ingenuidade tamanha de pensar-se ouvido, que o poeta contemporâneo se debruça sobre o – papel? teclado? painel? muro?, com a recorrente afasia, sem perdão da sua palavra.

Caminhando notívago por entre os escombros da comunicabilidade, juntando com alienação insistente das coisas mundanas-para-si e lançando mão do critério sincrônico da (sua) escritura, o poeta de hoje reporta como num inventário, o caráter de inevitabilidade e instabilidade do fragmentado, numa espécie de mendicância, de solipcismo, em que seu trabalho é a maior das inutilidades (as de fato inúteis e as de fato impreteríveis).

Fazer poesia é um ato tão marginal quanto paradoxal, pois é justamente visando “intervir” nesta sociedade que o despreza que o poeta escreve, tentando introduzir sem gratuidade no cerne do modus vivendi, do status quo, o cálculo deste trabalho de materialidade dos signos, feito um leão destrincha a carne de sua presa, e legando a posteridade, sem afetação, a especificidade destas rupturas.

Como se não bastasse, o infeliz do poeta deseja ardentemente investir na publicação de seus textos, agindo junto aos possíveis editores com a mesma desenvoltura de um cão danado, com a finesse que um elefante ferido nos olhos atravessa um campo repleto de copos de cristal.

Os leitores, estes então, têm mais sorte, pois nunca ouviram/ouvirão falar do tal do poeta. Ad perpetuam rei memoriam.





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