Atuais leituras

sábado, 8 de maio de 2010

Negócio (conto)

Eleu voltava do centro da cidade contrariado.

A vaga para faxineiro já se encontrava preenchida. Não evitou um gesto de desgosto para a recepcionista que o atendera; a moça respondeu com um muxoxo que o rapaz percebeu e o deixou mais nervoso. Saiu rápido, de modo precipitado, topando com um sujeito que subia os degraus da portaria. Não virou-se nem para distinguir o homem, quanto mais para um pedido de desculpas. O outro, por sua vez, endereçou-lhe um trágico palavrão.

Foi depois à agência de empregos. Uma visita breve, pois não chegou a ser atendido. Os dois minutos em que permaneceu sentado na sala de espera o enfastiaram tanto que deu por bastante haver ali estado, para “desencargo de consciência”. Os outros desempregados que também aguardavam olharam-no surpreendidos quando se levantou abruptamente. A mulher de meia-idade que enfiava o rosto numa revista, só baixando-a a sua saída, soltou um pequeno suspiro ao constatar que ele desistia assim, de imediato.

No seu ímpeto, Eleu esqueceu-se até de olhar a relação de vagas que normalmente fixavam na parede ao lado da entrada.

Voltava para casa sempre pelo mesmo caminho. A distância até a vila lhe custava uns trinta minutos a pé, os quais ia vencendo instintivamente, por vezes passando muito tempo sem levantar a cabeça, absorto naqueles pensamentos. Sequer olhava para os dois sentidos da via para cruzá-la. Era um hábito observado muita vez pelos conhecidos o caminhar daquela maneira, as costas curvas, a vista fixa na calçada, ruminando algum tema insinuante.

Naquela ocasião lamentava a falta de dinheiro; não poderia comprar o Pessoa abandonado no sebo há meses. A assinatura da revista também teria de esperar.

Devia estar pela metade do caminho quando percebeu um homem de bigode, muito baixo, que já caminhava lado a lado consigo. Eleu teve a impressão de que o outro iria interpelá-lo, e então não ergueu mesmo a cabeça, apertando o passo. Olhando-o de viés, malgrado suas pernas mais curtas, o homenzinho também aumentou o ritmo, não sem esforço. Eleu notou que este trazia uma sacolinha plástica, branca, na mão esquerda, e na mão direita um lenço com o qual enxugava sistematicamente o rosto, banhado em suor.

Por fim, Eleu diminuiu a velocidade, e o estranho então comentou o calor. Nosso herói daí encarou-o contrafeito e esboçou um sorriso ignóbil, mas não falou. O homem insistiu, encorajado pelos grandes dentes de Eleu, e contou que a hipertensão fazia-o sofrer muito nos dias quentes. Disse também que não pagaria o aumento da passagem do ônibus porque com a economia, no final do mês, podia fazer uma parte das compras de casa, porque eram apenas ele e a esposa, etc. Quando o fez, Eleu respondeu por monossílabos. Media o bigodinho do homem, grisalho como os cabelos, cortados rente. O senhor continuou falando das árvores e suas sombras pelo caminho, sendo sua poda recente “uma infelicidade”, pois elas aliviariam a mansão daquele “sol de rachar”. Eleu disse qualquer coisa sobre “sibipirúnas secas e podres” e o sujeito contou que ao vir do norte há poucos meses, acompanhado da esposa, já não conhecera aquela rua arborizada. Quase nunca saía de casa, salvo em dias como aquele, em que ia até a agência bancária para receber a aposentadoria – e aqui o homenzinho encarou Eleu com curiosidade. Voltou a comentar o preço das passagens e a vantagem que via naquela caminhada, conforme o médico recomendara. Aqui, então, o rapaz fez um discurso: disse que andar era, para ele, além de um exercício físico, uma terapia mental, porque nestas horas é que melhor raciocinava por estar “sozinho”, e que no mais, para o “amigo”, o dinheiro poupado não era assim tão necessário às despesas...

O baixinho, com um sorriso amarelo, concordou.

Permaneceram calados durante algum tempo. O estranho enxugava o rosto nervosamente, espreitando Eleu com um risinho patético; este, desta feita, teve ganas de partir-lhe a cara, aliviado por perceber que já se encontravam no bairro onde moravam. O estranho apontou a casa de esquina ocupada por si, muito velha e de paredes sujas. Era a única construção no terreno que fora até pouco tempo o barreiro de uma grande olaria.

Em seguida, convidou Eleu para um cafezinho. Alegando pressa, o rapaz seguia rápido pela calçada, fazendo um caminho diferente para não passar diante a casa do outro. “Pode visitar quando quiser, para conhecer a Inácia e tomar o cafezinho”, ainda disse o estranho, quando a contragosto, Eleu virou-se e notou nele a mesma expressão da mulher na agência de empregos.

A mãe estava no portão de casa conversando com uma vizinha e perguntou sobre a entrevista. O rapaz fulminou-a com o olhar que lhe lançou, enquanto os uivos da boa amiga abalavam o quarteirão inteiro.

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