Atuais leituras

sexta-feira, 11 de junho de 2010

No trem

Um homem morreu de frio, hoje,
Na Estrada do Ingaí, Barueri, São Paulo.
Vi seus pés maltrapilhos sob a caixa de papelão aberta que cobria o corpo mudo.

Colocaram aquele cobertor inútil durante a noite; achavam que ele ainda dormia.

Hipotermia, pode dizer o legista, mas isto nada mudará,
Não o destino de seu desencanto, de seu desapego final com o mundo.

Aquilo que um dia foi um sujeito – um homem de bem?
Um mendigo? Um outro? – aquilo que um dia
Foi a insistência de um corpo a ocupar um espaço no cosmo,

Um evento físico que tinha a ambição de um tijolo –
Até um tijolo quer ser alguma coisa, quer ser uma parede -,

Aquilo, dizíamos, ainda há de enfrentar (indiferente agora) o frio escasso de um túmulo,
A temperança pouca de um derradeiro abandono, que a vala lhe trará.

Um homem morto de frio não é um homem morto de fome:
Já não é um sonho. Um homem morto de frio já não é um sentido, um sentimento.
Um homem que morreu de frio é já um olhar

Lançado a seus pés, a algo de seu corpo mudo,
Que no vazio de sua presença quer fazer-se, quer achar-se,

Uma espécie de, uma possibilidade, um gemido.

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