Atuais leituras

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Cálculo

Chuvoso, obliterado, preguiçoso, frio.

É o dia seguinte ao Primeiro de Maio.

Quase não há trabalho a fazer

Onde antes tínhamos um grande ajuste de contas.



Se duas criaturas se juntam na obrigatoriedade

De ir pra casa no mesmo coletivo,

A conversa começa pelo cansaço e o descanso,

E passando pelo mau salário, descamba na maledicência.



Falar mal dos colegas é a predileção

Antes dos afazeres que temos com nossas coisas:

Faculdade, filhos, casa, poemas, dívidas.

São todos elos da mesma corrente repassada.



Nunca se é o fofoqueiro, muito menos o folgado,

Nunca o mandão, o lento, o que não faz nada.

Puxa-saco é fulano, mão-de-vaca é sicrano, o chefe é bravo.

Somos vítimas diárias de ataques à identidade.



É impossível trabalhar assim, sem condições,

Sem o devido reconhecimento – esse salário de fome! –

Nem podemos alimentar o sonho com o pão do trabalho.

E olha que fazemos mais do que podemos!



Cansamos de cobrir férias, faltas injustificadas, afastamentos,

Não cumprimos direito nem uma hora de almoço.

Fechamos ótimos negócios para a empresa

Graças ao crédito dos anos de serviços prestados.



Vários fornecedores nos conhecem e reconhecem.

Já ofertaram comissões, presentes, outro emprego,

Ganharam muito dinheiro às nossas custas,

Tanto quanto o patrão teria abençoado.



E o ônibus sacolejante e lotado é o palco lírico

Para dissertações as mais lógicas

Sobre o passageiro do lado e sua petulância

Em encostar-se nas pessoas a cada solavanco.



Não há como pedir favores, licença especial,

Cruzar os quatro cantos deste dia fechado em si

Com um riso de escárnio mal humorado nos rostos

Mais tristes do que cansados: vejam por si mesmos!



Sol amanhã é outra oportunidade perdida

Como foi a de hoje, como correm os dias soltos

Em roda do tempo a fluir o desgosto, chaga

Que dói de verdade – só que em terceiros.

Nenhum comentário:

Postar um comentário