Atuais leituras

terça-feira, 15 de março de 2011

Festa dos miseráveis - farsa sentimental em três atos (excerto)


Personagens

Bilac/Ferdinando – poeta, pai do filho de Agnes
Agnes – grávida há quatro anos
Amália – mãe de Agnes
Regina – amiga e confidente de Amália
Heitor – irmão mais velho de Agnes
Plínio – segundo marido de Amália
Cândida, Bárbara e Rosita - internas do hospital de saúde mental
Dona Eva – avó centenária de Bilac, guardiã dos seus escritos
Dois policiais


Cenários

Primeiro Ato – Sala de estar da casa da família de Agnes
Segundo Ato – Sala de jantar da casa da família de Agnes
Terceiro Ato – o mesmo do Primeiro Ato


Primeiro Ato

(Palco escuro. Na boca de cena, à extrema direita do palco, acende-se um foco sob o qual está Heitor, saco de compras à cabeça, empunhando um violão).

Heitor (canta) – Na festa dos miseráveis
Burguês não pode entrar!
Na festa dos miseráveis
Burguês não pode entrar!

(Repete. O foco então se apaga e quando o palco ilumina-se, entram Amália e Regina).

Agnes (fora de cena) – Blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá!

(Amália e Regina sentam-se ao sofá, atentas às palavras que vem de fora. Entreolham-se, Amália um tanto encabulada, Regina com curiosidade disfarçada).

Agnes (fora de cena) – Eu queria que você sentisse seu amor como sinto o meu: roliço, latejante, invasor de cada partícula expletiva do meu ser, ainda que furtivo, ainda que...

Regina (perguntando à Amália) – Expletiva?!

Amália (algo contrariada) – Já disse que ela já nem sabe mais o que fala!

Agnes (fora de cena) – Blá, blá, blá...

Amália (para Regina) – Agnes ainda se dá o trabalho de querer exigir desse moleque o mesmo sentimento – repulsivo, a bem da verdade – que ela diz ter por ele... Estou cansada de dizer que, depois de haver conseguido o que queria, o poetastro não tem mais nada a perder...

Regina (excessivamente meiga) – Ai, minha amiga, me corta o coração ouvir você contar estas coisas...

Amália (confidencial e queixosa) – Estou desabafando com você, Regina, porque você é de casa, sempre soube tudo sobre minha vida, já tivemos o mesmo amante... É claro que isto foi antes de eu conhecer o Plínio...

Regina (sarcástica) – Claro...

Amália - ... e apesar do esquecimento que você tem me dispensado ultimamente, na condição de minha melhor amiga, de você não guardo segredos...

Agnes (fora de cena) – Bilac, por favor, fale mais baixo, não grite, pelo amor de Deus!... Não!...

Amália (após uma pausa para ouvir o que disse Agnes) – Imagine! Agnes ficou grávida duas semanas depois de se conhecerem... Minha filha era virgem! Tenho certeza absoluta! Nós nunca havíamos conversado sobre sexo, eu tinha o maior receio de abordá-la com palavras que só fui ouvir depois de casada... (Pausa. Sem inflexão) E olha que eu estava apaixonada de verdade.

Regina (à parte, irônica) – Eu posso imaginar!...

Amália – Bilac forçou a minha filha, planejou tudo! (À parte) Com um calculismo que nem eu tenho nos meus melhores momentos!

Agnes (fora de cena) – Uma vez minha mãe disse que preferia ter um netinho a uma netinha...

Amália (para Regina) – O vagabundo não trabalha, nunca trabalhou, é evidente que quis colocar o burro na sombra engravidando a minha filha.

Regina (dissimulando) – É inacreditável! Se não fosse você quem me contasse, nunca acreditaria! E ainda por cima, e além de tudo...

Agnes (fora de cena) – Ah, Bilac! Não começa com isso de novo!...

Regina (continuando) - ... que além de haver acabado com o futuro da menina esse rapaz insinuou que esta gravidez interminável, complicadíssima, é fruto dos caprichos dela...

Amália (irônica) – Não!... Que a gravidez é coisa da imaginação dela, que aquela barriga nefasta que a minha filha arrasta para todo canto como uma maldição é... como foi mesmo que eu a ouvi dizendo... “um distúrbio de origem psicossomática”! Além do cinismo o outro quer passar ainda por especialista!

Agnes (fora de cena) – Como você é estúpido, exagerado... Sua ignorância me causa até enjôo!

(Grande pausa).

Regina (para Amália) – Olha Amália, eu não queria te aborrecer mais, mas ouvi umas coisas da Bernadete que não posso deixar de te contar.

Amália (curiosa) – A respeito de quê?!

Regina – Sobre esse rapaz, esse poeta: ele vende livrinhos de poesia nos bares mais imundos de Aurópolis, e de quem ele se aproxima, com aquele olhar vidrado, dizem que cheira mal, muito mal... (Após uma pausa, tentando perceber alguma reação da outra) Será que ele não usa drogas?

Amália (sem inflexão) – De onde a Bernadete o conhece? Como ela sabe da história?... Será que ela já comprou um dos livrinhos sujinhos dele? (Riso forçado, nervoso).

Agnes (fora de cena) – Eu estou é perturbada, muito perturbada com o que está acontecendo! Que palavreado chulo, vulgar, logo de você que é poeta! (Pausa). Se for menina será Rita, se for menino será Guilherme Vinícius...

Amália (dissimulando algum interesse) – Mas não é possível que esse miserável tenha espalhado essa infâmia por toda a cidade... Você sabe de mais o quê? O que mais falam?

Regina (saboreando cada palavra que pronuncia) – Você sabe né, Amália? Tudo é boato, conversa fiada, só que a Bernadete...

Amália – A Bernadete o quê? Fala!

Regina – O marido dela, o Ronaldo, como você sabe, é psiquiatra, e ele contou que esse Bilac já andou visitando o Saúde Mental, quer dizer, foi mandado à força pra lá dia desses.

Agnes (fora de cena, bonacheira) – Qual é, Bilac? Já começou com essa conversinha de poeta?

Regina – O Ronaldo reconheceu um livrinho que o outro trazia nas mãos, agarrado a ele como se aquele pedaço de papel pudesse salvá-lo de ser internado... O sujeito fugiu dos enfermeiros na hora da internação, quando percebeu; foram precisos quatro homens para agarrá-lo... Parece que foi de madrugada e quase ninguém viu.

Agnes (fora de cena) – Eu te respondo, meu querido: sim, você já fez algo do qual possa se arrepender, pois estou grávida!

(Grande pausa).

Amália (forçosa, num suspiro) – Coitadinha da minha filha, meu Deus!...

Agnes (fora de cena, firme, irônica) – Uma criança bem saudável, que a gente ame muito, Bilac! É disso que nós precisamos pra sermos felizes, seguirmos por um rumo do qual a gente não se arrependa!

Amália (de repente, para Regina) – Mas, Rê, mudando de pato pra ganso, como se diz, eu te chamei aqui pra outra coisa: o almoço dominical que fazia todo ano, lembra?

Regina (sem jeito) – Ah, sei, aquele em que você promovia o seu ato de caridade... Faz um tempão que não acontece, não é verdade?

Amália – Também, depois de tudo o que aconteceu na minha vida nestes últimos anos, não tinha condições psicológicas... Mas pra mim é insuportável ver por mais tempo a Bernadete levar os louros por tomar uma idéia minha.

Regina – Nos últimos anos ela tem realizado este almoço... Me convidou no ano passado... (Tossido). Mas eu não compareci... O fato de ela ter recebido o prêmio benemérito neste tempo tem colaborado pra eu e o Ronaldo mantermos a esposinha inerte...

Amália - Pois é, sabe aquelas doidinhas que o Ronaldo trata às próprias custas? Se eu as trouxesse pra comer aqui em casa, que tal, você viria?

Regina (vacilante) – Amália, eu...

Agnes (fora de cena, com voz chorosa) – Claro! Eu sou sua cúmplice... Ou será que não?

Regina (com receio) – Pense bem, hein, Amália. A Bernadete se arrependeu do almoço do ano passado, quando recebeu as tais internas do Saúde Mental; até implica agora com o marido por ele querer sustentá-las... O assunto das três quase sempre descamba para a religião, que o método do Ronaldo e dos responsáveis pelo tratamento é enfiar-lhes Deus goela abaixo, que discos-voadores existem e percebê-los, veja só!, é o único futuro de promissão que pode ter a raça humana...

Amália – A Bernadete já me ligou pra contar estes detalhes – a moral delas está inclusive baseada em que os costumes trazidos porventura pelo contato com os ETs possam fazer à sensibilidade humana... Repetem sempre as mesmas coisas, a mesma ladainha invariável! Mas tal situação por mais maçante que seja não deixa de ter o seu charme... Só que, meu bem, trazê-las até a minha casa vai mostrar àquela sonsa da Bernadete que ela não é a única disposta a “tudo pelo próximo”!

Regina – É verdade que depois do encontro com as doidinhas em sua casa o prestígio da Bernadete aumentou... Ela recebeu o “Mérito de Caridade” que a direção do Hospital – subentenda-se, seu marido – concedeu ano passado. Criou-se esse prêmio, a bem da verdade, por intermédio do Ronaldo, por tanta insistência daquela sonsa...

Amália – Pois então, eu não posso ser uma cidadã pela metade, posso? Tenho que levar este prêmio também!... Já está resolvido! Vou realizar este encontro, e preciso de sua ajuda pra convencer o Ronaldo a liberá-las – sei que isso é simples pra você, Rê... (Dá uma piscadela para a amiga).

Agnes (fora de cena) – Chega, chega de minimizar o sofrimento! Está tão insuportável que já escancarou as portas da realidade!... Será que você não percebe, Bilac?!

Regina (para Amália, sardônica) – A Bernadete vai adorar esta idéia, se a conheço...

Amália – Então, acha que isso não vale o sacrifício? Na próxima vez em que estiver com o Ronaldo veja se consegue lembrar-se de tocar no assunto, dando a entender que é coisa minha, ato de caridade e coisa e tal...

Regina – A mulher vai sair da cidade na quarta-feira, acho que vamos passar o dia inteiro juntos então. (Suspira com enfado).

Agnes (fora de cena) – Depois sou eu que não entendo nada! Ironia comigo não vai te levar a lugar nenhum, meu bem!

Amália (frívola) – É a chance! Conversa direitinho com ele...

(Ouve-se um sonoro tapa fora de cena, vindo da direção de onde Agnes discutia com Bilac. Ato contínuo, a moça solta um grito estridente de dor, e chora escandalosamente. Amália e Regina assustam-se, levantam-se em direção ao grito, mas Amália imediatamente estaca, impedindo a outra. Dá de ombros.)

Amália (num lamento) – Não posso interferir mais, infelizmente! Depois de quatro anos a coisa já tomou uma dimensão que, às vezes, não sei se o que machuca mais é a espécie de pessoa com quem minha filha se envolveu, ou se o impasse dessa gravidez que nunca chega ao fim...

(Nos bastidores, sobre os soluços de Agnes, alguém bate violentamente uma porta.)

Regina (curiosa) – Agnes está grávida a quatro anos!? Mas como isso é possível?

Amália – Quatro anos!... Já faz tanto tempo assim... Agnes parece que vai explodir, que vai dar à luz a qualquer momento, mas os médicos não se alarmaram... E olha que nós já consultamos todos os obstetras de Aurópolis e vários daqui da região. Todos sem exceção, a despeito da desorientação da minha filha, do seu estado emocional em pedaços – e que piora cada vez que vai a uma consulta – , os médicos não se mostram surpreendidos... O Castanheiro, que foi colega de turma do Plínio no colégio, teve o disparate de dizer que essa gravidez, ao contrário de ser uma anomalia, algo inédito...

Regina (sardônica) – O Dr. Castanheiro é aquele que foi pego num motel com outro sujeito usando lingerie...

Amália (enfática) – O próprio!

Regina – Pra ele tudo pode parecer natural, depois desse vexame!

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