Atuais leituras

sábado, 19 de março de 2011

Parecer sobre "Vacas no céu do interior", Márcia Lígia Guidin



SÃO PAULO, 4 DE DEZEMBRO DE 2010.
PARECER: VACAS NO CÉU DO INTERIOR
Ari Marinho Bueno
Scortecci , São Paulo, 2010



Prezado poeta Ari

Esta leitura crítica se baseia no seu livro já editado pela Scortecci, que me foi enviado há meses. A capa é boa, bonita, mas o volume é muito pequeno. Não recomendo, como editora que também sou, que se façam livros assim tão fininhos. Acho que o editor deveria sempre aconselhar o autor nesse sentido. Fico muito brava quando se deixa um autor a ver navios.

O seu prefaciador, na orelha, (me perdoe), eu não o conheço, mas não disse nada de útil,  ficou em cima do muro, e para não se comprometer diz “e o livro possui qualidades”, que é  o mesmo que dizer ‘não me comprometo com o que falo’. Esse mesmo prefaciador diz que não nos livramos do século XX. Claro que não!  Na poesia, nem  entendemos ainda o século XX integralmente,  não o deglutimos. E  essa  será  uma qualidade sua:  está tentando poetar de acordo com a modernidade que nos chegou há tantos anos. Sugiro que leia seus colegas Mariana Iannelli, Lélia Romero, ou a maravilhosa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andersen.

Peço desculpas pelo atraso, e tentarei ser muito útil na avaliação e impressões de sua poesia. Na verdade, dada a subjetividade estilística, (seu jeito de absorver a frase),  temática (roça, trabalho, ócio, memória, solidão) e de sua personalidade literária (atrevida, instigante, ousada), considero que o caráter principal da obra está no fato de os poemas parecerem, ao leitor, um conjunto de experimentações poéticas, várias muito bem-sucedidas, outras nem tanto.

Ora, isso é bom e mau ao mesmo tempo (Salvaguardo o titulo que é excelente!); na verdade, devo dizer (antes de  falar sobre sua poesia)  que a lírica moderna, ou pós-moderna, é avessa, segundo entendo, a rimas, estrofação  regular, ritmo harmônico ou qualquer reminiscência da poesia do século XIX.  Disso sabemos nós, leitores, desde Bandeira, Drummond, Pessoa; aliás, desde Baudelaire... O novo mundo (deles, do século XX), que nós ainda não substituímos  por outro, trouxe a lírica para o cotidiano e para a liberdade, como dizia Bandeira, com “Estou farto do lirismo comedido”; ou como dizia Drummond: “Não rimarei a palavra sono/ com a incorrespondente palavra outono/Rimarei com a palavra carne/ ou qualquer outra, que todas me convêm.”

Essa libertação que tais poetas nos trouxeram e que tão poucos aproveitaram você  a usa, e eu considero excelente a força de sua modernidade. (Ou seja, estou discordando plenamente de seu prefaciador).

O que o faz ainda (com todo o respeito) uma espécie de poeta aprendiz é o excesso (aqui , neste pequeno volume) de experimentalismos, tanto na forma como nas fôrmas  poemáticas.  Há em sua poesia algo dos  poetas concretos, que, claro, valeram no seu tempo, mas  já não servem  para nada. E você absorve um pouco demais os poetas consagrados, como Bandeira, Drummond, etc.  Ou seja, você  adere, como homenagem estilística, imagino, aos poetas modernos. Isso também tem um lado bom e um lado ruim, e neste,  fica parecendo epigonia... e não originalidade.

O que  também ocorre, muitas vezes, é que sua poesia se debruça sobre o metalinguístico, e isso dá a sensação de cansaço, está fora de moda, digamos, desde João Cabral na década de 60.  Por vezes, você  cai no dogmático, na poesia política, o que não é bom (sim, Drummond falou disso tudo em A Rosa do Povo, mas não somos Drummond)...Cair para o ideológico na lírica não me parece um bom caminho.

Em outros momentos, que aponto adiante, me parece (coisa plausível, mas que deve ser superada), que você exagera em locuções adjetivas,  pelo simples prazer de unir palavras.

Tenho diante de mim, sim, obra  interessante, e a prova disso é a subjetividade aguçada e a grande inquietação pela observação do mundo (sentimento do mundo, diria Drummond)  e isso é século XX, é ser contemporâneo de Drummond . (Mais uma vez seu prefaciador errou: ser século XX é ser contemporâneo e não “beletrista”, isso era século XIX, no pior momento do parnasiano aguado. Você está longe disso.)

Em resumo, Ari, antes de lhe dar observações pontuais: reconheço no seu trabalho um poeta em formação, de empenho sólido, que poderia, se quisesse, prosseguir, participando do amadurecimento que trazem os grupos de estudos poéticos. Não sei se existem em sua região. Em SP há vários.  Gosto muito de sua epígrafe do Auden, mostra sua personalidade  autocrítica, de transparente poeta e leitor sagaz  E que aguenta o tranco da crítica. Isso é ser maduro.

Passo agora a comentar por páginas.

Vívidas
Epígrafe: excesso
Primeira Estrofe: Bom, com seu mergulho na subjetividade.
Terceira Estrofe: Fuga para o mundo social que interrompe com o nonsense o lirismo familiar. Isso não é bom.

O vigoroso movimento de mãos
Excelente; condensação de imagens. Dísticos
Terceira Estrofe: “dia muito rente” – muito bonito

Sem título, ou buraco em aberto
Muito apegado ao estilo de Drummond. Preocupação com o mundo, com a generalização da palavra “homem”. Sensação de dèja vu. Não considero original  Homens/sombras/bombas/detonar: clichês

I.
Numeração intencional/obscura?  
“POVO em as ruas”: aqui vejo um  desprezo louvável e corajoso pela sintaxe e organização. (isso é muito bom).

II.
“na praça hodierna”: A menção à palavra erudita coloca no âmbito da ironia. Bom.

Estupro coagido da Garota de Ipanema
O título destoa do poema.“n’ali”: causa  estranhamento, parece gratuidade, gracinha do escrevinhador.

Pág. 21
Desestruturação da ordem sintática e extrema condensação: isso é bom, aliás,  excelente.Reorganiza-se a união na última estrofe (nós/quatro/a sós).bom.

Catequese do alegre plagiador
Poema difícil; Excesso de exclamações.Terceira Estrofe nos encaminha com certa proposital obscuridade para o coletivo. Não gosto disso
Última Estrofe: de difícil compreensão, abandona o lírico em benefício do ideológico; é doutrinário, panfletário. Não considero um bom resultado.

Trabalho
Lirismo condensado expõe contraste “mundo/eu”;
“Ócio”: palavra abusada no uso. Eu tiraria.

O calor do interior
Título: rima ruim. Desprezo pela grafia padrão (começa com minúscula é bom); Mas o poema não funcionou : as rimas e verbos no infinitivo, “destruíram” as intenções líricas.Não vejo bom resultado.

VACAS NO CÉU DO INTERIOR

Não compreendo, mas deve ser um nonsense fundador da poesia, pois é título da obra. Não recomendo tal obscuridade. Gostaria, como leitor, de usufruir melhor do texto.

Distração
Muito bom, apesar de lembrar muito Drummond
Título destoa do tema do poema.

O amor
Terceiro verso: bom uso desprezador da “força” falsa das proparoxítonas;
Quinto verso da segunda estrofe: sugiro revisão da quebra dos versos
Última estrofe: a referência metalinguística ao poema “pequeno” é excelente.

Pág. 31
Bom – interrompe qualquer possibilidade de bucolismo com a gíria á moda do Drummond  (“ETA vida besta, meu Deus”)

Pág. 32
Bonito

Pág. 33
Excelente, criação que é forte porque despreza a ordem sintática que não liberta; faz mais: destrói e para mostrar isso cria a rima.

Pág. 34
Idem pág. 33

Pág. 35
Idem pág. 33

Noventa versos (2002)
Título: aqui o poeta recolhe o lirismo para beneficiar a referência metalinguística. Dobra-se mais à construção que à emoção. O resultado é vago.  Deixar de lado o lirismo não é bom. Vigora a ordem sintática e estrutural.“serão o berço” é  clichê
“um retórico dar de ombros” é retórica  engomada

II.
“fracos os poetas vivos”: metalinguagem meio gratuita.

III.
Há excesso de adjetivos, embora precisamente colocados
Esteta/obuses: vocabulário engomado.

IV
Terceira, sexta, oitava e décima estrofes: CDA
“o avatar do credo”: palavra da moda, ficou perigosa.

V.
O leitor perdeu as escassas referências de apego à(s) temática(s) do poema. Resultado ruim.

VI.
“Um só galo não fia manhã alguma;”: ouço João Cabral (diálogo com “Um galo não...”); MUITO APEGO ao poeta.
“o inacabado esconderijo em nós mesmos...”: ecoa um pouco Murilo Mendes.Cuidado com a epigonia...

Pág. 43
Bonito, experimental.

Pág. 45
Primeira estrofe: eco em CDA
Segunda estrofe: não gosto do experimental.

Governo da antimatéria
Referência ao medievo, mas obscura.
Sétima estrofe: interessante
Estrofes 10-12: há certo prazer excessivo com a palavra, com as locuções criadas. Daqui em diante, cansa o leitor;Quem é nosso herói?

O esquecimento
Nona estrofe: apego à construção;
Estrofes 11-13: lembra Jorge de Lima?


Tosse ou a tosse
Homenagem a Manuel Bandeira? Não acho bom o resultado.

Pág. 56
Ecoa o poema telegráfico de Oswald de Andrade

Pág. 57
Discordo da distribuição dos versos na página em branco.

Pág. 59
Maravilhosa consciência lírica.

Conclusão
Assim, Caro Ari, encerro dizendo-lhe que vale a pena prosseguir, tenha você 30, 40 ou 50 ou 80 anos. Vale a pena tentar afastar-se de seus modelos, pois o que chamei de experimentalismo é na verdade, um pouco de falta do próprio estilo. Há uma hora que temos de parar de ler poesia dos outros. Elas ecoam demais na gente. E, sem perceber, repetimos o que eles fizeram melhor que nós.

Atenciosamente, à sua disposição para dúvidas.

Márcia Ligia Guidin
Em dez de 2010 

Nenhum comentário:

Postar um comentário