Atuais leituras

sábado, 7 de maio de 2011

Amizade e política em La Boètie

1. O pequeno trabalho que se segue é uma tentativa de encontrar na bibliografia indicada pontos de convergência que tornem aceitável a afirmação “amizade e política são incompatíveis na esfera do poder”, através de breve análise intertextual da relação entre homem (indivíduo) e Estado (governo).
2. No “Discurso da Servidão Voluntária”, La Boètie aponta já no título a contradição fundamental, qual seja: como se pode “servir voluntariamente”? Como pode o homem, que nasce livre, sujeitar-se de maneira dócil e espontânea a toda e qualquer espécie de poder? Aqui não há distinção entre “príncipes” justos ou tirânicos; para La Boètie todos os governos são despóticos, pois abolem em essência a liberdade individual, sendo todo o indivíduo sujeito às leis e às regras das relações de poder um ser “desnaturado”. Cabe ressaltar que o autor remete sua argumentação ao postulado do “mau encontro” entre o homem que ordenou e aquele que se deixou servir. O radicalismo desta proposta pode ser resumido, num primeiro momento, à busca da dialogia entre duas vontades: o poder mandar e o querer obedecer.
3. Montaigne, contemporâneo e amigo fraterno de La Boètie, no capítulo XXVIII “Da amizade”, presente nos “Ensaios”, reverencia o caráter e a memória deste (já falecido), evocando a atração originária do convívio através dum elogio à amizade; afirma ali que esta só pode ser verdadeira se nascida do desinteresse e reconhecimento mútuos, a exemplo de seu relacionamento com o autor do “Discurso”: “éramos metade em tudo”.
4. No Livro VIII da “Ética a Nicômaco” de Aristóteles, encontramos um discurso voltado ao juízo de valor da amizade: esta é perfeita se há bondade e virtude, sendo tal fraternidade “simétrica”. A amizade é uma prerrogativa humana, pois só aos homens é dado reconhecer a reciprocidade; os verdadeiros amigos são equânimes, com a mesma disposição um para com o outro.
5. Marilena Chauí no seu “Amizade, recusa do servir” explicita no texto de La Boètie a contraposição entre o interesse das relações de poder como “identificação e unidade disformes”, baseados na negação da liberdade individual - expulsa do convívio social como uma fraude ao “desejo de servir” -, e a amizade verdadeira (Montaigne) entre indivíduos igualitários, ou antes, que se reconhecem como singulares e autônomos pelo caminho traçado inversamente ao da “ilusão e do feitiço”, “da sociedade política que se produz a si mesma”.
6. Considerando como referência o texto de La Boètie, usamos como ponto de partida o trabalho de Marilena Chauí por seu caráter analítico e pela sua perspectiva a posteriori: em “Amizade, recusa do servir”, o corpo do poder, - personificado pelo governante e autenticado por “juristas e teólogos” -, é uma representação carismática (“halo de perpetuidade”) que traz em si a natureza, a divindade e a justiça. O povo, seus súditos, seria uma mera contingência de algo imortal, uma “imitação da coroação de um”. Não poderia haver, assim, maior distanciamento possível entre tirano e servos, tornando improvável neste contexto a premissa da amizade (fraternidade), segundo Aristóteles – citado por Chauí: “a última coisa que um amigo pode desejar é separar-se do amigo”.
7. A viabilidade da proeminência do Um (governo, poder) se realiza nos “quatro ou cinco que mantêm o tirano; (...) que lhe conservam o país inteiro em servidão.”, citando La Boètie. Continuando: “Tão bem esses seis domam seu chefe, que ele deve ser mau para a sociedade não só com suas próprias maldades, mas também com as deles”. A manutenção do status quo introjeta o vício do cálculo na rede de gestão do Estado (“(..) essa rede não verá os seis mil mas os cem mil, os milhões que por essa corda agarram-se ao tirano (...)”, segundo o “Discurso”); opera a homogeneização do indivíduo para construir a relevância paradoxal dos direitos civis. Aqui as relações são mediadas pelo valor prático em alinhamento com os objetivos de sujeição e corporativismo que os grupos formados dentro desta “teia” praticam.
8. Para La Boètie, é inexistente a verdadeira amizade nestas circunstâncias; aqui o homem desnaturado baniu do cotidiano a sua liberdade original, “(...) nas amizades que nos impõe a lei e as obrigações naturais, nossa vontade não se exerce livremente (...)” como diria ainda Montaigne.
9. Pensamos, então, que mesmo os governos democráticos não exprimem a liberdade individual, pois o desejo da maioria infere que o desejo da minoria foi ignorado, suprimido. Interpôs-se entre a natureza e a vontade humanas somente o curso de suas necessidades, em detrimento de suas virtudes.
10. Na ausência de amizade fraterna entre os indivíduos – sua equanimidade considerada como causa e fim últimos -, a liberdade estará para sempre vilipendiada.


São Paulo, Abril de 2011.

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