Atuais leituras

domingo, 3 de julho de 2011

Interpretação do § 157 das “Investigações Filosóficas”, de Ludwig Wittgenstein

O texto do § 157 das “Investigações Filosóficas” de Wittgenstein trata, basicamente, de sabermos quando uma “máquina de leitura” de fato lê, ou seja, sabermos qual o momento em que esta realiza uma simples verbalização de sinais linguísticos em comparação ao momento em que há uma “compreensão” verdadeira do que se lê.

“Seres humanos, ou outros tipos de creatura”, como diz Wittgenstein, são as “máquinas de leitura” – e isto se tornará distinto adiante, na seqüência da leitura deste parágrafo –, promovendo aqui um paralelo entre o homem e as outras criaturas (sejam animais ou máquinas) que de maneira diversa expressam algum tipo de linguagem, mas que, diferentemente do ser humano, não “reagem” a esta linguagem de modo específico.

O parágrafo interroga sobre qual o momento em que o professor - que assiste a um aprendiz que ainda não é capaz de ler - deve considerar como sendo aquele em que o aluno começa a ler: quando, ainda que por acidente, ele consiga pronunciar uma palavra daquelas que são colocadas diante de si ou, após algum tempo, quando lê seguida e corretamente tais palavras? Segundo Wittgenstein, este questionamento não faz nenhum sentido, sem que tenhamos anteriormente instituído uma convenção, a saber, uma regra, uma definição para acordamos tal fato com a expressão do mesmo.

Não se trata aqui da compreensão de um sentido oculto, como se o aprendiz tivesse enfim alcançado a essência universal desta ou daquela palavra que estivesse num domínio metafísico de representação e que possuísse uma equivalência física (objeto) no mundo real; em verdade o que se propõe é a justeza do processo de treinamento, quando o indivíduo é inteirado por meio do treinamento dos usos e costumes da linguagem através da vida cotidiana e da interação com outros seres humanos também detentores desta habilidade.

Wittgenstein insere, no texto, a palavra “ler” como o divisor de águas para nomear a experiência da escrita para a fala, condicionando como fato determinante a sensação (que poderíamos também designar como consciência) do aprendiz ao relatar – “agora, estou lendo.” O possível aluno objetivaria, assim, delimitar a convenção definidora para sua ação.

Como tratado por Wiitgenstein em seu “Livro Azul”, a leitura e o entendimento de uma proposição como, p.ex. “vá até o jardim e me traga uma flor azul”, não infere em que o ser humano ao qual tal sentença se dirija possua num lugar mormente denominado “mente” uma espécie de fichário, onde existam distintamente a imagem de um jardim, de uma flor e da cor azul que ali interajam como num quebra-cabeça montado e codificado pelo pensamento. Para o autor, não é necessário para reconhecimento destes objetos (jardim, cor, flor), a preexistência destes como se pertencentes ao rol (fichário) de ideias inatas ou essenciais que representariam a realidade por intermédio da linguagem (sujeitos, nomes).

Quando se refere à pianola – e aqui está a distinção principal que o filósofo quer fazer entre o ser humano e as “máquinas de leitura” - , Wittgenstein reconhece um fenômeno no fato de o instrumento “ler” os sinais impressos para transformá-los em sons, creditando a ação “leitura” a uma condição anterior: “depois que tais e tais partes foram conectadas com fios.” A partir daí, se pode considerar a pianola como “lendo”. Na “máquina de leitura viva” não há um mecanismo íntimo, um local fisicamente interior (como o conceito de mente), nem um acontecimento anterior (compreensão pelo aprendiz de um sentido metafísico oculto da palavra à sua frente – sentido este que faria parte de uma série de ideias inatas), onde se alojaria a interdependência para a compreensão da linguagem.

Podemos a partir daqui, para maior entendimento da leitura do parágrafo tratado, expor algumas das ideias de Wittgenstein a respeito da linguagem contidas principalmente em sua obra “O Livro Azul”, trabalho este anterior às “Investigações”.

Para Wittgenstein, pressupor a existência de um “lugar”, de um “meio” (mente) na qual se processa a linguagem é um “erro categorial”; ele não ignora a existência de mecanismos no cérebro que “exerçam” a função da linguagem, os quais a ciência investiga. O que o filósofo aponta é o mau uso da linguagem em Filosofia (que ele considera ser uma doença), e que leva a erros ou a “sintomas” dos quais seu trabalho seria a “terapia”.

As sentenças teriam entre si algo como um parentesco, uma semelhança que as torna reconhecíveis dentro do jogo linguístico e suas infinitas regras, as “semelhanças de família”. Estas são limitadas e possibilitadas pelo que existe de biológico no homem (corpo), sendo condicionadas pelo treino.

Daí não ser possível se falar em uma ordem oculta do sentido, um psicologismo para além do uso hábil e habitual das proposições, pois o efeito e a causa destas são suas marcas no mundo, ou seja, na vida do homem, e que podem ser analisadas pelo reconhecimento de jogos de linguagem que estão, em última instância, moldados por nossa cultura, costumes, ambientes.

Tais sentenças ou proposições são convencionadas, normatizações que o uso corriqueiro de tal e tal palavra e/ou expressão infringe ao homem por meio de seu adestramento – daí a necessidade do “treino”. Este seriam processos paralelos à fala, “processos mentais” que se tornariam verdadeiros ou falsos de acordo com nosso discurso, onde o significado dos sinais é fornecido pelo uso prático com os quais os associamos. Não se trata somente da articulação ou verbalização de uma palavra, mas também de reconhecê-la no outro como reação a uma regra aplicada mormente como sendo legítima dentro de um determinado jogo linguístico reconhecível.

Tal reação se dá com a mudança de comportamento que o indivíduo apresenta ao aprender a falar, a ler, tendo em vista que este aprendizado seja um adestramento. O entendimento do sentido de uma palavra não se dá com a mecânica repetição do som fonético, mas com a reação expressa no comportamento do indivíduo diante de tal e tal sentença.

A ação ou comportamento diante de uma sentença é que nos dá a medida da habilidade, destreza e domínio do outro com relação às regras de linguagem para os quais houve treinamento, ainda que o mesmo tenha sido assistemático. Não existe um programa, um cronograma, um planejamento anterior ao aprendizado do homem para colocá-lo no sítio da linguagem. Os indivíduos que por alguma razão não dominem de maneira satisfatória os “jogos de linguagem” não dão sentido às suas sentenças, pois não sabem jogar no campo da aplicação cotidiana de tais e quais “semelhanças de família”.

Aqui o termo “sentido” não tem caráter de anterioridade (ideia primeira do objeto), mas sim de objetivar a semelhança de família que se opera diante do que se quer expor, diante da intencionalidade.

Por exemplo: podemos dizer que estamos na expectativa do resultado de uma prova, ou da chegada de alguém, mas não podemos dizer que há um “estado mental” que caracterize “a” expectativa: o que existe é uma semelhança de família entre as reações corporais e o estado mental/psicológico referente, e não um “conceito” comum a eles.

No “Livro Azul” a exposição das ideias é feito o desenrolar de uma “corda” (para lançarmos mão de uma imagem utilizada pelo filósofo) que se desembaraça por meio do raciocínio indutivo de Wittgenstein, no qual este insinua, através de sua escritura, a direção do pensamento que requer ao leitor. O texto se desenvolve como uma base estilística à demonstração de sua proposta.

Ali, o filósofo “provoca” seu interlocutor para induzí-lo à “cãimbra mental”, instaurando a pergunta fundamental “o que é?” para mostrar que a fixação de formas é absolutamente contrária a ideia mesma de linguagem.

Só pode haver um acordo em relação ao que será nomeado de tal ou qual forma se a definição aí existente habitar o universo dos jogos de linguagem como uma recorrência entre comportamento e adestramento, como podemos inferir, por exemplo, da leitura do § 157 das “Investigações Filosóficas”.

Wittgenstein considera, então, que podemos conhecer o que ocorre com o outro mediante suas reações e este “jogo de semelhanças” no sítio da linguagem. Desvelamos nosso mundo através do cotidiano que nos cerca, entranhado nos acordos que fazemos diariamente para expressarmos a vida que descobrimos no semelhante.

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