Atuais leituras

sábado, 22 de outubro de 2011

Poema do ressentimento


Estou dentro do meu corpo o bastante para saber o que falam de mim.
E o que não falam. Todos tem razão em achar alguma coisa,
e eu tenho convicção de que não há má-fé.
É apenas falta de destreza em usar a liberdade, todos condenados,
e eu sei que sou livre dentro do corpo que sei.

Um corpo que cai no vazio de um outro corpo é ouro
roubado de si por si: só há criação quando vivo à solta, em meu corpo,
e é tão constrangedor o que ouço de mim por mim
que só pode ser da minha conta tal desvelo.
Fazer disso um plágio da ideal vida alheia.

Lá, para além de todo corpo, existe apenas o fora.
Desconhecer é o primeiro passo para dentro, o que nem podem ver.
É som inarticulável, universo sem palavras. Silêncio íntimo.
Quando uso do artifício de ouvir o que bate dentro da caixa úmida,
o desprezo pelas gentes despenca do penhasco solitário.



21.10.2011
sexta-feira

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