Atuais leituras

sábado, 22 de outubro de 2011

Setenta vezes sete


1. Numa semana muito distante no tempo (tão distante que é provável que nunca houvera), acordou numa segunda-feira o homem que não sabia morrer.
Seu hálito embrutecido pela gente da qual fazia parte, abriu os olhos para o espetáculo canhestro cujo público e personagens eram uma coisa só. Ele queria manter-se desperto, mas a bordo de sua vida o espírito desvelado se esquivaria, coisa.



2. Leitor de ser lido, o homem da segunda-feira por um átimo só quis ser si mesmo na terça, depois do bocejo, depois das águas esgotadas, dos tecidos limpos e do clarear dos cornos do dia.
Na terça-feira o dia após a segunda. Um pouco mais de cansaço, um pouco mais de morte, um pouco mais do teatro infame do seu mundo.
Órfão para sempre dos pais que o acometeram no país do suor torpe.



3. De uma câimbra ao espreguiçar, ainda deitado, começa a quarta-feira.
Todo o besteirol do nojo invadindo os ares, aquele homem da semana improvável se alivia ali: é o mundo todo. E este, como um dia soubemos, é um bola. 
Um sujeito cruza por ele na sofreguidão da calçada apinhada de maus atores, e em crise sua arte é manha que se avoluma. O estranho, em meio a tudo, é bem parecido com o que aprendeu um dia - seja então o planeta geóide! Um sorriso.


4. Sob o toldo de uma loja de sapatos, escondido da chuva repentina de verão, o pensamento mantêm-se a seco. "Minha alma vê pela transparência do meu cristalino o que a faca alheia fez em minha carne, e me distancio assim da dor, do aço e do medo que um dia atingia a vida de meus semelhantes, e a minha. Dispondo de algo que era meu, alcanço a maior fraternidade da qual jamais fui vítima." A quinta-feira entardecida, a falta de claridade, de clareza. Adiante, o viaduto e a fila de carros.



5. “Hoje, indo para o trabalho, vi o corpo de um homem que havia sido queimado. 
Ele estava corretamente estirado, rosto para cima, como se jazesse numa mesa de autópsias 
(o que me fez crer que fora morto antes do fogo consumir suas roupas). 
Seus pés descalços permaneciam intactos e alguns pedaços de telha de amianto haviam sido retirados de sobre ele pela polícia e curiosos que se encontravam no local. Hoje, sexta-feira, dia santo – a morte é o fim de todos os milagres?”


6. Poderoso por acordar tarde, livre da culpa da preguiça,
o nosso homem de sábado: um passatempo a folgar, fazer a coisa certa. Nas avenidas em branco da vontade, a cidade rumina como um animal, suas construções desérticas de amor e paz. Flanando por entre os canteiros sujos
das plantas nativas que não naturam mais, o primeiro dia de descanso em uma semana. O primeiro dia de luz, de sede, de conservar-se ótimo.


7. Tal seria a inextrincável semana, 
que talvez não existisse se eu não estivesse aqui. Tal seria o homem simples, maturado pela ação da poluição e do calor, 
riso solto quando provocado. Nascido ao normal de um domingo, já nem fazia mais conta disso. Mas ali se sentia bem. Nos domingos em que a pachorra, a azia de estar vívido não lhe negava o lapso de toda a semana por chegar, caminho mortal.

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